28/02/2015

Acúmulo de animais, um transtorno invisível

Sempre falei que este assunto é muito delicado. O problema não é o recolhimento dos animais e sim o relaxamento com a higiene.
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Maria Cristina Gomes começou a recolher cães da rua há dez anos: “Não tenho medo, pego até sarna deles”
Curitiba vai mapear pessoas que recolhem cães e gatos da rua, e vivem em condições precárias. Objetivo é subsidiar políticas públicas

O acúmulo de animais em casa, mais que um gesto de compaixão com cães e gatos abandonados, é um transtorno mental que desafia as autoridades públicas. A maior parte das pessoas que sofre desse mal é invisível aos olhos das políticas de saúde dos municípios. O problema afeta inclusive os animais, que acabam vivendo em espaços pequenos, com água e comida escassas.

Em Curitiba, uma iniciativa da prefeitura planeja mudar esse panorama de
abandono. A Rede de Proteção Animal deu início a um levantamento inédito que pretende localizar e traçar o perfil dos acumuladores na capital. A partir dos resultados do estudo, o município quer desenvolver um plano de ação que garanta o bem-estar do acumulador e dos animais. Com financiamento da Fundação Araucária, a pesquisa é a primeira do tipo no país. Os dados serão levantados a partir de denúncias feitas ao telefone 156 e à Rede de Proteção Animal. Até agora, cerca de 130 casos foram catalogados pelo grupo.

Coordenador do levantamento, Alexander Biondo estima que existam pelo menos 150 acumuladores em Curitiba. Para ser diagnosticado com transtorno, não basta ter uma quantidade determinada de animais em casa. A definição do problema não depende do números de bichos, mas de um padrão de comportamento. “É um transtorno compulsivo que entrou neste ano para a lista de doenças mentais. É uma doença que se caracteriza pela perda, em que a pessoa se marginaliza e até projeta a personalidade nos animais”, diz Biondo, que é diretor do Departamento de Pesquisa e Conservação da Fauna da Secretaria Municipal do Meio Ambiente.

De acordo com ele, muitas vezes o acumulador não tem condições de tratar os animais adequadamente, mas também não percebe o mal que causa. Outra característica que o diferencia dos protetores de animais, por exemplo, é o apego excessivo, que impede as doações. “O acumulador não põe para adoção, ele põe empecilhos. A pessoa pode ter um animal e ser acumuladora, mas o perfil que imaginamos encontrar nesse estudo é de pessoas com cinco a dez cães para cima.”

Depois de identificadas, elas serão visitadas por um grupo de biólogos, veterinários e psicólogos da Se­cretaria Municipal de Saú­de, Universidade Federal do Paraná e Faculdade Dom Bosco para entender melhor cada um dos casos. A previsão é concluir o mapeamento em dois anos.

Moradora do Uberaba tem 110 cachorros

Quando perdeu o filho, há 10 anos, a dona de casa Maria Cristina Gomes, 52 anos, começou a acolher cachorros da rua. A primeira foi “Neguinha”, já adulta. Depois, veio Sansão, um filhotinho. Logo, a pequena casa no bairro Uberaba se tornou referência para pessoas que desejam adotar ou dar um lar a cães doentes ou abandonados. “Quem tem cachorro doente vem se consultar aqui. Nem vai mais no veterinário”, diz.

Ela conta que já acolheu e recuperou incontáveis caninos. “Calculo que hoje tenho uns 110”, afirma. Alguns chegam à casa dela quase sem vida, maltratados, com sarna ou pulgas. “Não tenho medo, pego sarna deles. Hoje mesmo chegaram três, um cheio de sarna. Ontem doei um pequeno e hoje um pitbull, mas é difícil adoção. Mais entra do que sai.”

Para dar conta de alimentar os mais de 100 “filhos” – que comem 30 quilos de ração por dia –, ela pede a ajuda de vizinhos, amantes de bichos e até da panificadora próxima, que doa sacos de pães. “Tem dia que não ganho nada, então, acabo gastando uns R$ 180 por mês”, calcula ela, que é pensionista da Paraná Previdência.

Os animais, garante Ma­ria Cristina, estão melhor ali do que abandonados na rua. Mesmo assim, reclama que a prefeitura já foi até a casa dela com a Guarda Municipal por causa do mau cheiro. “Até concordo com os vizinhos. Limpo toda hora, mas não tem jeito.”

Ajuda
Nos próximos meses, Ma­ria Cristina teme ficar sem lugar para morar com os cachorros. “A proprietária quer a casa e eu preciso de um lugar pra morar. Não quero de graça, pago o aluguel, mas precisa ser aqui perto, porque cuido da minha mãe doente.”

5 comentários:

  1. Curitiba foi a 1a. cidade q conheci c/jardins públicos, em 1981 e continuo sendo a 1a., agora na defesa dos animais...

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  2. Existem no Brasil acúmulo de bens alheios, acúmulo de dinheiro em Banco da Suiça, acúmulo de bolsas, acúmulo de sapatos, acúmulo de roupas de griffe, acúmulo de alimentos, acumulo de jóias, acúmulos de vinhos e champagnes importados, acúmulo de terras improdutivas, acúmulo de imóveis, acúmulo de automóveis na garagem, acúmulo de especulação, e por aí adiante. Causam transtornos econômicos na sociedade e são visíveis. Mas todo mundo acha normal.

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    1. Sem falar no acúmulo de lixo, de alimentos desperdiçados, de favelas, de criminosos e da falta de vergonha na cara de nossos governantes.

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    2. Eu compreendo a depressão pelo que essa senhora vem passando desde a morte do filho, fora a frustração de querer salvar o mundo, mesmo sabendo que é impossível. É mais fácil encontrar gente para acusar e criticar do que encontrar gente para ajudar.

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  3. Conheço várias acumuladoras de animais em Porto Alegre. Em 2011 passei o ano todo ajudando uma delas, providenciei a castração e adoção de quase todos os animais, cerca de 50 (tenho todos os termos de adoção), aí engravidei e fiquei uns meses sem ter notícias, mas tranquila que havia deixado somente cinco cães e dois gados na casa daquela senhora de mais de 70 anos e que vive com apenas um salário mínimo. Quando fui saber como estava, já havia mais de 20 cães adultos e inúmeros filhotes, todos novamente acorrentados e sob sol e chuva. Não tenho mais condições emocionais de ir lá!

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