08/02/2014

Literatura: "A fábula do céu dos animais"

Autora: Bianca Santos

"A FÁBULA DO CÉU DOS ANIMAIS"

Madrugada salpicada de estrelas e o típico silêncio interrompido pelo piado de uma coruja pendurada em majestosa árvore – prenúncio de novo acontecimento! Sapos, cobras e outros animais de hábitos noturnos perdidos na contemplação da misteriosa lua cheia.

Um riacho sussurra de maneira sedutora, chamando um cão vira-latas que passeava nas proximidades. O animal aproxima-se. Debruçado em sua margem; escuta um uivo vindo de longe... Distrai-se e escorrega. As águas frias o conduzem lentamente ao fundo, cada vez mais... De olhos fechados e como se pudesse respirar tranquilamente, o cão submerge em águas rasas, às margens de
um outro lugar... Ele chega a uma terra muito distante, onde todos os animais vivem em harmonia.

─ Bem vindo ao céu dos animais! ─, ouve o pequeno cão, ainda de olhos fechados.

Abrindo vagarosamente os olhos, o animal se surpreende ao ver tamanha beleza. Uma floresta imensa que nem mil anos seguidos seriam suficientes para conhecê-la em toda a sua plenitude. Os grãos de terra molhada brilhavam mais do que dezenas de pequenos sóis, sendo suspendidos pela suavidade dos ventos que os faziam girar em rotações espirais, misturando-os ao aroma hipnotizante de frutas e flores. Uma terra diferente de tudo que já existira; um lugar onde até o vento saudava calorosamente os seus visitantes... As árvores gigantes, em uma dança solene, erguiam seus fartos galhos como se oferecessem a longevidade e a força de seus milenares anos...

O cicerone aguardava as primeiras palavras daquele que acabara de chegar.

─ Será que encontrei um lar de verdade? ─ perguntou o pequeno cão, ansioso.

─ Você merece muito mais do que isso meu querido amigo. Olhe bem pra mim, não lembra de quando caminhávamos até a beira

do rio dos monges e vagávamos contando estrelas até adormecermos no meio daquele vegetação úmida e macia? 

─ Aquiles, é você mesmo? ─, interrogou o simpático vira-latas.

─ E você ainda tem dúvida? ─, interrogou amistosamente um Husky siberiano de grande e altivo porte.

Os dois companheiros de aventuras abraçaram-se como se nada no universo pudesse separá-los novamente.

─ Aqui é mesmo o céu dos animais? ─ perguntou o cão, duvidando de tanta felicidade.

O gigante siberiano sorriu, fez um sinal afirmativo com a cabeça e permitiu que o velho companheiro de aventuras continuasse:

─ Como você sabe, Aquiles, eu nunca tive um lar, assim como você; nunca tive sequer um nome; então, é difícil acreditar que aqui no céu existam lugares reservados pra cachorros abandonados como eu.

─ Sei que sua vida não foi nada fácil. Dividíamos tudo: a ração, a casinha de cachorro da cabana abandonada, a luz do luar e as canções que vinham dos arredores do velho retiro. Mas, agora, tudo mudou!

Borboletas azuis com finas caudas prateadas giravam graciosamente no ar, pousando delicadamente nas costas do pequeno vira-latas, convidando-o a um passeio pelas trilhas da mágica floresta. Os amigos seguiram por uma trilha de vegetação rasteira agradável, aromatizada com essências de framboesa e outros delicados perfumes. O desejo de conhecer tudo era notório no olhar atento do cativante vira-latas. Passos tranqüilos, a sensação de estar ligeiramente flutuando acima de um chão que aquecia a alma de todos que pudessem tocá-lo e a chegada ao local prometido.

─ Chegamos ─ disse o canino siberiano, olhando na direção de um suntuoso templo de meditações.

─ Parece o palácio das mil e uma noites que um dia eu vi no livro de histórias da sua antiga dona, Aquiles.

─ Bem lembrado, é uma réplica dos palácios das lendas das mil e uma noites e tudo que está aqui foi construído com a colaboração de todos os animais que moram nessa extensa floresta. Estamos penetrando a morada dos magnânimos elefantes ─ os sábios mais velhos desse lugar, que fazem muitas vigílias nesse antigo templo. Vamos aos jardins suspensos. Os sábios elefantes já sabem que estamos aqui.

Os cães subiram alguns degraus de uma pequena escada feita de ouro e pedras de jade. O corrimão, envolvido por exóticas flores, que ao serem tocadas, exalavam uma doce melodia indiana, revelava a paz reinante na pacífica floresta.

─ Aqui tudo está ligado ao movimento das emoções. Tudo é real, à medida que desejamos que seja ─, esclareceu o anfitrião.

Um círculo de fogo e quatro elefantes em posição de reverência a um altar coberto de gelo ocupavam a maior parte do espaço dos jardins. No centro do altar, um objeto não identificado pelo visitante.

─ O que é isso ? ─ perguntou o visitante.

─ Os sábios elefantes pedem através desse milenar ritual, que os corações humanos se libertem da crosta de gelo que os encobre; só assim o prisioneiro que vive há milhões de anos dentro daquele objeto no centro do altar, será libertado.

─ E quem está aprisionado ali dentro há tanto tempo? ─, perguntou o vira-latas, indignado.

─ Aquele que criou o céu dos animais, as montanhas, os lagos, os planetas, as poesias que nunca foram ditas, as crianças que nunca puderam nascer, os heróis que nunca puderam vencer e os presságios que nunca seguiram o seu verdadeiro destino...E tudo mais de que se tem conhecimento na imensidão do universo...

O pequeno cão olhou o gigante siberiano como se tudo aquilo fosse verdadeiramente impossível. Então, diante de tamanha dúvida, Aquiles levanta uma de suas patas e a coloca no coração do bravo guerreiro sem lar.

─ O amor está adormecido desde o início dos tempos e nós, animais dessa floresta encantada, estamos tentando acordá-lo e libertá-lo, há muitos e muitos séculos, entretanto, o maior obstáculo tem sido o gelo que envolve esse altar, que é formado pelos sentimentos dos corações
dos homens... É como se todas as lágrimas dos animais, viventes no céu e na Terra, não fossem suficientes para chegar ao centro desses corações, aquecendo-os e libertando o seu próprio Criador. Continuaremos tentando, até o fim dos tempos, pela eternidade...

O pequeno cão abraçou o velho companheiro emocionado e juntos ajoelharam-se em reverência ao Cálido Cerimonial em Defesa do Amor. 

Autora: Bianca Lobo e Luar
(Escritora holística, cyber-ativista pela não-violência mundial, defensora dos animais)

5 comentários:

  1. Muito bonito o texto. Parabéns pelo talento, Bianca.

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  2. Não sou radical, sei que existem muitas pessoas maravilhosas de bom coração nesse nosso mundo, mas se, o paraíso fosse somente reservado aos humanos e o inferno aos animais, ainda assim, eu escolheria o inferno para que lá, eu pudesse ajudá-los no que fosse possível.

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  3. Lindo!!! Me fez chorar!!!
    Mais vale o inferno ao lado de um amigo fiel que o céu ao lado de seres que se dizem humanos... Eu prefiro a companhia dos animais!

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  4. Jorge Romano12/02/2014 14:14

    É claro que os animais tem um lugar destinado para eles. Não seria justo sofrerem pelos humanos, mudar a vida dos humanos SEMPRE para melhor, ensinarem o amor incondicional e simplesmente deixarem de existir.

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